O setor de eventos como espaço de relevância para o debate político

O setor de eventos como espaço de relevância para o debate político

por | fev 24, 2026 | Blog

Crédito da imagem: Freepik

Nas sociedades democráticas e organizadas, o ideal é que as esferas de poder sejam autônomas e independentes. Se existe a necessidade de seguir legislações previamente estabelecidas, também deve ser certa a possibilidade de se buscar novas formas de atuação.

Isso se manifesta de forma evidenciada na relação entre o ambiente político e a universo corporativa e de negócios. Ainda que as ações e decisões de um lado impactem de forma significativa no outro, ambos os setores devem manter relações isentas e com o máximo de transparência possível.

No Brasil, entretanto, as fronteiras entre determinados setores da sociedade tendem a ser difusas. Isso faz com que até mesmo um nicho de mercado com suas características e definições próprias, como é o caso do setor de eventos, invariavelmente se torne o palco central do debate político.

E, via de regra, essa atitude pode ser muito saudável. Um exemplo que ilustra com perfeição essa situação é a criação do PERSE – Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos. A iniciativa que foi oficialmente lançada através da Lei nº 14.148, publicada em maio de 2021, teve como objetivo imediato mitigar os impactos econômicos promovidos pela pandemia.

A interrupção dos eventos em sua quase totalidade devido aos protocolos de isolamento social promoveu impactos significativo em praticamente todo o setor de eventos. Para fomentar a recuperação do segmento, indispensável para o crescimento do país, foi elaborado o PERSE que, conforme descrito em matéria publicada no site da ABRAPE – Associação Brasileira dos Promotores de Eventos, englobou “cinco pontos essenciais para a sobrevivência do setor: refinanciamento de dívidas, créditos para sobrevivência das empresas, desoneração fiscal, manutenção de empregos e condições de adiamento e cancelamento de atividades”.

E um dos elementos motivadores para a aprovação do programa foi a intensa mobilização que reuniu lideranças e empresários do setor para, na capital federal, conscientizar os agentes políticos sobre a urgência e a necessidade da aprovação da lei.

É importante lembrar que o programa teve reflexo direto e indireto em mais de 50 áreas de atuação, impactando um total superior a 20 milhões de profissionais em todo o país. Essa importante conquista social e empresarial não seria possível se o debate político não fosse inserido de maneira ética e assertiva dentro do setor de eventos.

Manifestações culturais e limites legais

No carnaval desse ano, entretanto, o tema político acabou assumindo o papel de protagonista. Em muitos canais de comunicação, as análises se concentraram no uso dos desfiles cariocas como plataforma eleitoral e deixaram em segundo plano os aspectos culturais do maior espetáculo da Terra.

De acordo com uma matéria publicada na imprensa no dia 16 de fevereiro “a liberdade política encontra, na cultura, um de seus territórios mais antigos e simbólicos. Em sociedades democráticas, manifestações culturais não apenas refletem o tempo histórico, como também ajudam a moldá-lo. O Carnaval brasileiro, em especial, sempre foi palco de disputas simbólicas, críticas sociais, exaltações populares e leituras políticas, ainda que, recorrentemente, se tente reduzir sua potência a um entretenimento despolitizado ou a um espaço socialmente inferiorizado”.

Independentemente de posicionamentos ideológicos ou partidário, e especialmente, deixando de lado qualquer julgamento histórico ou social a respeito da biografia das personalidades escolhidas para serem homenageadas pelas escolas de samba, criar um enredo tendo como destaque principal um pré-candidato ao mais importante cargo público do país é uma decisão no mínimo controversa. Se, conforme orientação já emitida pela justiça, não há impedimento legal que proibisse a homenagem, deveria prevalecer o bom senso visando um pleito eleitoral justo e ético, ou seja, a homenagem deveria ser cancelada ou adiada para o próximo ano, já com o devido encerramento do período eleitoral.

Um ambiente democrático é caracterizado pelo exercício da soberania popular, onde valores como o pluralismo e o respeito precisam ser promovidos. Para isso, o estabelecimento de limites precisa existir, para que as exceções não se configurem como regra.

Pensar o passado para repensar o futuro

Historicamente, os eventos já foram utilizados como importantes arenas para o debate de temas delicados envolvendo política e sociedade. Jogos Olímpicos, Copa do Mundo e iniciativas de caráter cultural já foram palco para ações que tinham como objetivo utilizar toda a sua visibilidade e importância para atrair as atenções para uma determinada causa ou pauta.

O que aconteceu no carnaval brasileiro desse ano, sob certos aspectos, já faz parte do passado. A escolha do tema por parte da escola, sua respectiva aprovação pela organização responsável pelo evento, a deliberação positiva das autoridades judiciais e a própria aceitação por parte do homenageado foram decisões polêmicas que, com toda a certeza, estão longe de terem suas repercussões encerradas.

Este episódio recente envolvendo a festa que é uma espécie de símbolo do Brasil para o mundo deve servir como um importante ponto de reflexão. É necessário que o setor de eventos, o ambiente corporativo, as forças políticas e judiciárias e a própria sociedade como um todo pense neste passado imediato para, com clareza e tranquilidade, repensar o futuro.

O que vem de agora em diante depende de todos nós.

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